Em 15 de março, Tamara Bojanovski estava em meio a uma multidão de manifestantes antigovernamentais em Belgrado quando ouviu um som “como uma máquina poderosa vindo de trás”. Milhares de outras pessoas também ouviram o barulho, e a multidão, que se encontrava em uma das principais avenidas da capital sérvia, se dispersou rapidamente, correndo para as calçadas.
Stefan, um estudante, descreveu um “estrondo” seguido de um som de avião muito próximo e a sensação de algo se aproximando rapidamente da multidão. Dragica, outra estudante, relatou ter sentido “uma onda viajando através de nós”. O advogado Bozo Prelevic, ex-ministro do interior, afirmou que “as pessoas se sentiram fracas e algumas caíram”.
O som durou apenas alguns segundos, mas gerou especulação de que uma arma sônica teria sido usada ilegalmente para dispersar o protesto, o que dominou as manchetes, programas de TV e redes sociais da Sérvia. O incidente colocou o presidente Aleksandar Vucic, já pressionado pelos maiores protestos civis em décadas, em uma situação delicada, exigindo explicações.
Armas sonoras, ou armas sônicas, utilizam sons intensos para incapacitar alvos, podendo causar danos auditivos, dores de cabeça e náuseas. O uso desse tipo de arma é ilegal na Sérvia. As autoridades inicialmente negaram possuir esses dispositivos, mas o ministro do Interior, Ivica Dacic, admitiu que a polícia de Belgrado comprou Dispositivos Acústicos de Longo Alcance (LRAD) dos Estados Unidos em 2021. Esses dispositivos são utilizados em vários países, como os EUA, Austrália, Grécia e Japão.
Apesar da admissão da compra, a polícia, a agência de segurança e inteligência e as Forças Armadas negaram ter usado tais dispositivos em público. O presidente Vucic declarou que especialistas do serviço de inteligência russo, o FSB, haviam sido enviados para investigar o caso a pedido de Belgrado, e, posteriormente, afirmou que investigadores do FBI chegariam em alguns dias.
Vídeos geolocalizados indicam que a onda sonora percorreu mais de 500 metros pela Kralja Milana Street. Zoran Radovanovic, epidemiologista que estava presente, comparou a cena ao relato bíblico de Moisés abrindo o Mar Vermelho: “A rua se esvaziou…”
A Omega Foundation, órgão de defesa dos direitos humanos, afirmou que, embora os vídeos e relatos fossem inconclusivos, sugeriam que um LRAD poderia ter sido utilizado. Neil Corney, pesquisador da Omega Foundation, comentou: “Nós realmente não vimos um efeito como esse antes. Foi muito distinto”. A organização Earshot, especializada em investigações de áudio, sugeriu que o som poderia ter origem em uma arma de anel de vórtice, uma arma experimental não letal para controle de multidões, mas afirmou que mais pesquisas eram necessárias.